"DONA
NÃO SE PODE"
(Yara
Nazaré)
Penso
que toda criança, minha
contemporânea, teve
um mito contado por alguém
com o intuito de se fazer
obedecer, pois afinal é
uma das funções
do mito, a obediência!
Minha
tia viúva, sempre ficava
comigo e meus irmãos
quando nossos pais iam aos
bailes, para que não
ficássemos a sós
com as empregadas. E ela "gostava"
de tomar conta dos sobrinhos
mas, contava para nós
cada estória, de arrepiar...
E uma delas, era a da "Dona
Não Se Pode",
mulher muito alta, magra,
feia e solteirona, com os
cabelos tão longos
que encostavam em seus pés
e que todas as noites saía
do seu esconderijo, com uma
sacola grande, atrás
de crianças pequenas
para furtá-las dos
pais e "adotá-las",
como suas. Tinha uma característica
própria, pois quando
avistava uma criança
acordada, depois das 19h00,
esticava seu tamanho, na vertical,
crescendo, crescendo e crescendo
tanto, até ficar do
tamanho ou mais alta, do que
um poste de luz. Como era
magérrima, podia assim,
entrar em qualquer nesga de
janela ou porta aberta e pegando
a criança no colo,
colocava no nariz da mesma,
um lenço de seda molhado
com uma essência de
plantas silvestres, fazendo-a
adormecer. E assim, quando
a criança acordava
do torpor provocado pela inalação
da essência, já
estava muito e muito longe
de sua casa. Portanto, segundo
minha tia, todas as crianças
deviam ser obedientes quanto
ao horário de deitar
para dormir, senão
a Dona Não Se Pode,
viria buscá-las e nunca
mais as traria de volta. Dizia
também, que todas as
crianças levadas pela
mulher que esticava, passavam
a esticar também igual
a ela.
Ficávamos
quietinhos a escutá-la
e tão logo encerrava
a sua narrativa, corríamos
para nossas camas com medo
da Dona Não Se Pode
vir nos buscar.
E
para que fôssemos dormir
sem sonhar com a dita cuja,
nossa tia orientava para que
colocássemos um grampo
de cabelo, debaixo do nosso
travesseiro, pois assim não
sonharíamos com a solteirona
que esticava e o nosso medo
passaria.
Acreditei
na "DONA NÃO SE
PODE", até mais
ou menos os dez anos de idade
e tinha pavor que ela me levasse
da casa dos meus pais.