NO
PEITO
UMA
CAVERNA
(Rosimeire
Leal
da
Motta)
A
estrutura
do
meu
ser
é
uma
rocha.
O
meu
interior
foi
dissolvido
pela
água
da
chuva,
ocorrendo
uma
série
de
processos
geológicos:
uma
combinação
de
transformações
químicas,
tectônicas,
biológicas
e
atmosféricas...
Formando
uma
cavidade
rochosa
no
meu
peito!
Ao
redor:
paisagem
cerrada,
relevo
acidentado,
alta
permeabilidade
do
solo,
permitindo
a
absorção
rápida
das
decepções!
Minha
alma
especializou-se
em
viver
em
ambientes
escuros
e
sem
vegetação
nativa...
O
meu
“eu”
está
refugiado
numa
caverna.
Esconderijo
seguro
contra
os
animais
selvagens
da
vida!
Lágrimas
desenharam
no
chão,
desenhos,
arte
rupestre
dos
desenganos!
Evidências
arqueológicas
mostraram,
que
eu
sou
da
idade
da
pedra,
com
uma
mente
fechada
para
as
mudanças!
Perdi-me
no
tempo,
coloquei
uma
barreira
na
entrada
do
meu
coração...
Escondi-me
de
mim
mesma,
fechei
as
portas
para
o
sol
da
manhã!
Isolada,
morria
aos
poucos...
e
não
sabia...

TIMIDEZ
(Rosimeire
Leal
da
Motta)
Tentei
exprimir
meus
sentimentos
com
declarações
vindas
do
coração.
Mas,
a
vergonha
apertou
o
meu
pescoço,
os
sons
a
ser
articulados
engasgaram
na
goela.
Minhas
idéias
fundamentais
da
vida
não
puderam
ser
transmitidas.
A
insegurança
me
obrigou
a
renunciar
meu
desejo
de
ser
feliz.
Ensaiei
falar
claramente
o
que
sentia,
no
entanto,
perdi
o
ar,
quase
provocando
asfixia.
Ao
longe,
a
existência
acenou
para
mim,
porém,
a
timidez
não
me
permitiu
responder.
Presa
por
nenhuma
corrente,
contudo,
impossibilitada
de
caminhar.
Minhas
palavras
foram
enforcadas,
morreram
antes
que
eu
pudesse
expressar
a
pessoa
que
eu
sou.
Por
fim,
meus
lábios
se
abriram,
mas,
emitiram
vocábulos
ao
vento.
E
o
ar
atmosférico
em
movimento
natural,
causaram
erosão
nos
meus
ânimos,
remodelando
friamente,
a
paisagem
do
meu
eu.

ESCULPINDO
UMA
POESIA
(Rosimeire
Leal
da
Motta)
Dois
artistas
se
uniram
para
criar
uma
obra
de
arte.
Utilizaram
materiais
perenes
e
duráveis.
Inspiraram-se
na
ternura
mais
profunda
que
sentiam
um
pelo
outro!
Escreveram
uma
história
de
amor
e
a
perpetuaram
com
os
seus
sangues!
Linguagem
humana
retratando
um
momento
vivido
a
dois...
Expressão
de
um
sentimento
especial!
A
matéria-prima
dos
poetas
é
a
paixão
que
os
tornam
um!
Poder
criativo
delineando
uma
arte
poética,
despertando
a
sensibilidade
do
belo.
Um
ser
inicia
seu
processo
de
crescimento:
desenvolvimento
do
feto
gerado
no
útero.
Após
nove
meses,
o
conjunto
de
obras
em
verso,
tomou
forma,
abriu
os
olhos
e
chorou
de
emoção!
Era
uma
poesia
viva,
esculpida
em
relevo
total.
Lirismo
em
toda
sua
extensão!
Fruto
da
união
de
um
homem
e
de
uma
mulher
que
se
amaram
e
eternizaram
este
afeto.
Um
filho:
visão
emocional
do
estado
da
alma.
Porém,
ali
há
também,
a
assinatura
de
Deus...
CANTIGA
DE
NINAR
(Rosimeire
Leal
da
Motta)
(Obs.:
Poesia
escrita
logo
após
a
morte
do
meu
pai,
Pedro
Sabino
da
Mota
–
1912/2007)
Era
final
da
primavera,
novembro...
Um
pássaro
incomum,
com
o
olhar
melancólico,
pousou
no
batente
da
janela
do
seu
quarto.
Pôs-se
a
cantar
uma
canção
eterna,
dividida
em
estrofes
e
terminada
por
um
estribilho.
O
som
era
melodioso,
porém,
fúnebre!
Melodia
com
trechos
literários,
cantando
o
fim
da
vida!
Era
uma
cantiga
de
ninar,
que
o
fez
adormecer
suavemente...
O
tema
poético
enfatizava
o
criador,
anjos
anunciavam
que
há
um
lugar
onde
todos
dormem
profundamente!
Ele
permaneceu
num
sono
sem
respiração,
com
o
corpo
em
estado
de
relaxamento...
Perdeu
a
noção
do
existir,
expirou,
sendo
transportado
para
as
asas
da
ave.
Esta
agora,
emudecida,
voou,
sumindo
de
vista,
levando
silenciosamente,
um
personagem
que
era
parte
de
mim...
Meu
pai,
quantas
saudades!

MENORES
ABANDONADOS
(Rosimeire
Leal
da
Motta)
O
aroma
da
flor,
nem
sempre
é
agradável
ao
olfato:
seu
pólen
pode
causar
alergia
respiratória,
tornar-se
grudento...
É
aquele
ser
plantado
num
canto
da
rua,
afastado
da
convivência
afetuosa!
Submeteu-se
ao
processo
de
desidratação:
evaporou-se
sua
esperança
de
ser
feliz!
Debaixo
do
sol
intenso
do
desprezo,
perdeu
a
água
que
nutria
seus
ideais.
Menores
abandonados
no
caminho
da
exclusão,
cheiram
a
injustiça!
A
imundície
das
suas
roupas,
reflete
a
podridão
do
lado
social:
fingem
que
ajudam,
empurram
a
sujeira
para
debaixo
do
tapete.
É
impossível
para
a
chuva
que
cai,
limpar
as
amarguras
do
coração-criança:
formam
lama
ao
seu
redor,
afunda
cada
vez
mais...
Desfolharam
suas
pétalas
secas,
resultado:
mal-me-quer!
INTÉRPRETE
DO
CORAÇÃO
Rosimeire
Leal
da
Motta
Combinação
harmoniosa
e
expressiva
de
sons.
Melodia
agradável
aos
ouvidos.
A
platéia
acompanha
hipnotizada,
a
fragrância
da
música
que
lhe
desperta
os
sentidos.
Espalham-se
na
atmosfera
acordes
suaves
e
envolventes!
Emanação
aromática
que
faz
bailar
em
pensamentos.
Dominação
perfeita
das
notas
musicais!
O
vento
desarrolhou
o
frasco
do
salão.
O
perfume
instrumental
atravessou
fronteiras.
Aplausos
soaram
no
palco
fortemente,
quando
o
violino
chorou
emocionado
ao
revelar
os
sentimentos
daquele
que
o
tocava.