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UM CERTO RELÓGIO CARRILHÃO

(Yara Nazaré)

     Eis que janeiro chegou e com ele a viagem tão esperada de férias, rumo à fazenda Poção, no sertão nordestino. Era meu lugar predileto para passar as férias, pois minhas primas de lá, eram muito legais! Tínhamos mais ou menos a mesma idade. Eu já estava com dez anos.
E, dessa vez, encontrei uma novidade, um lindo relógio carrilhão, que meu tio mandara trazer de Lisboa e motivo de orgulho para ele. O relógio realmente, era muito bonito e marcava as horas tocando peças musicais, retinindo nas suas cordas. Minha tia colocou-o em lugar de destaque, preso na parede sobre um móvel antigo, logo embaixo da escada que dava acesso ao andar superior da casa de sobrado, cujo piso era de tábuas de madeira corrida maciça.
O andar de cima não tinha laje de concreto no piso que era de madeira corrida.
Logo no primeiro dia, depois de tantas brincadeiras com as primas, chegou a hora de dormir. Antes fizemos a famosa ceia da noite, regada a mingáu de aveia, coalhada e outros quitutes.
O quarto de dormir das primas, ficava ao lado da escada, sobre a parede onde estava preso o relógio português. E, exatamente ao lado dessa parede, foi armada para mim, uma rede de linho, com as varandas em crochet, feita artesanalmente. Eu tinha muito medo de "alma do outro mundo", em virtude das histórias que ouvia outra tia minha contar. Jamais teria coragem de levantar durante a noite para ir ao banheiro. E... acredito que a explicação para o que ocorreu em seguida, está aí!
Quando o dia amanheceu, acordei lá pelas 06h00, percebendo o maior silêncio. Em fazenda acorda-se cedo para tomar leite mugido, tirado na hora, no peito da vaca, com mel de abelha dentro do copo. Mas, de repente, senti tudo frio em minha volta dentro da rede e senti uns arrepios e calafrios na barriga... Eu havia feito xixi e molhado toda a rede e o lençol. E agora? Tímida e encabulada como eu era, o que fazer? Levantei-me, desatei a rede, enrolei-a junto com o lençol e fui descendo os degraus da escada lentamente e cuidando para não fazer barulho.
De repente, desejei ser uma "alma do outro mundo" e sumir em um estalo... Ao pé da escada, estavam as primas, os primos, os tios e as criadas, rindo muito e apontando para a "obra de arte" que eu fizera! Inaugurei o famoso relógio lisboense, com o meu xixi que vazou por entre as tábuas de madeira, do chão do quarto de dormir! Que vergonha passei e jamais esqueci.
 Mas, o tempo passa... e em 1999, já morando em Brasília, fomos de férias para Fortaleza-CE. Lá, fomos convidados para jantar na casa de uma das primas da fazenda Poção, que depois de casada, foi residir na capital cearense.  Quando chegamos, foi aquela alegria. Relembramos os alegres momentos da nossa infância passados na fazenda dos pais dela, das brincadeiras e das histórias contadas sob a sombra das árvores. Em seguida, a prima avisou-me que tinha uma surpresa para mim e levou-me para outra sala da casa. Apontou para uma parede e lá estava ele, o famoso relógio lisboense que havia sido inaugurado, regado a xixi!
Rimos todos mas, confesso, fiquei encabulada!

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