POESIAS
DE:
BERNARDINO
MATOS

SAUDADE,
UMA TERNURA IMENSA.
(Bernardino Matos - 16/05/05)
O
tempo é um espaçoso e imenso
palco,
onde o show e a trajetória da vida
acontece,
e através de um imenso e preciso
placar,
registra cada detalhe e de nada esquece,
permitindo, até, que o ser humano
possa,
com base no passado o futuro projetar.
Os
registros de todos os fatos e acontecimentos
são salvos e guardados na memória
de um arquivo,
onde vamos buscar lembranças e
recordações,
sempre que necessário e por algum
motivo,
desejamos que elas aflorem vivas e intensas,
quando alento e ternuras exigem nossos
corações.
Esse
trio: o tempo, os registros e as lembranças,
Dimensionam com precisão e com
rigor a nossa idade,
E ao reunir cada detalhe de nossa história
de vida,
Define o conceito e o conteúdo
da saudade,
O tempo informa o quando; os registros
detalham o como;
E o amor informa o que merece e queremos
dar guarida.
“Dê tempo ao tempo”,
é sempre uma decisão sábia,
“tenha calma, isso passa”,
reflete uma conformação,
“vai dá certo, você
vai ver”, é confiança
e otimismo,
“meu Deus, quanta saudade”,
é puro amor e afeição.
“eu era feliz e não sabia”
é um sentimento de tristeza
não ter, porém, o que recordar,
é o vazio total do egoísmo.
Embora
alterne momentos de alegria e de tristeza,
A saudade retrata com fidelidade a nossa
história,
as lembranças de entes queridos
nos machucam,
mas o ter com eles vivido é uma
glória,
Deus os colocou, sabiamente, em nosso
caminho,
e, muitas vezes, dá-nos a impressão
que nos escutam.
Se
o semblante de minha mãe, em minha
mente surge,
Um rosto suave, um olhar triste e um ar
bem dolorido,
diante de um fogão a lenha, suando
com dignidade
lavando, e passando roupas, de um modo
bem sofrido,
rezando e pedindo a Deus proteção
pra todos nós,
torna-se impossível dela não
sentir saudade.
Se
revejo meu pai com os olhos fixos no horizonte,
suplicando a Deus chuvas para irrigar
o seu roçado,
ou escalando postes para do telégrafo
restabelecer a ponte,
ou nas procissões pedindo aos céus
uma oportunidade,
com as mãos feridas de um trabalho
áspero e pesado,
torna-se impossível dele não
sentir saudade
Se
relembro o meu irmão mais velho
à luz de uma lamparina,
estudando, para um concurso, durante toda
a madrugada,
para tentar ajudar a família pobre
e mudar sua triste sina,
lutar durante 30 anos e morrer sem conseguir
prosperidade,
sem jamais perder a coragem, a esperança
e o otimismo,
torna-se impossível dele não
sentir saudade.
Se
a luta para a sobrevivência foi
dura e por demais árdua,
mas se a convivência no sertão
me deu força e dignidade,
se o viver, lado a lado, com pessoas sofridas
me deu coragem,
para enfrentar a vida sem medo, e com
lealdade.
se todo o caminho percorrido foi importante
e valeu a pena,
torna-se impossível dele não
sentir saudade.
Se
tive, nos momentos mais difíceis,
amigos sinceros e leais,
que me estenderam a mão nos piores
trechos da caminhada,
que foram importantes na conquista dos
meus ideais,
e se ainda sinto falta de suas companhias
e amizade,
e se gostaria de retomar, passo a passo,
cada instante vivido,
torna-se impossível deles não
sentir saudade.
Se
o estudo em Paris, sem recursos, me trouxe
pesadelo e dor,
se a formação de uma pequena
república eliminou o medo,
se a contribuição de cada
um numa caixinha trouxe destemor,
se unidos nos preparamos para o futuro
com esperança e vontade,
se a recordação desses momentos
sadios aperta-me o peito,
torna-se impossível deles não
sentir saudade.
Se
nos momentos de amargura e de profundas
agruras,
Liso, atordoado, meio perdido, sem rumo
e solitário,
e nos bares de Pigalle com uma stripper
dividia ternuras,
e ela me transmitia paz, segurança,
sem demonstrar piedade,
embora sem saber o seu destino, nem de
sua vida o desfecho.
torna-se impossível dela não
sentir saudade.
Se com minha esposa vivi momentos de paixão
imensa,
de um amor profundo, para mim, o maior
do mundo,
se hoje, caminhamos, lado a lado, com
chama ainda intensa,
se foram todos os momentos vividos cercados
de lealdade,
se os gestos nessa trilha só aumentam
nossa felicidade,
torna-se impossível deles não
sentir saudade.
Se
consegui, na vida, todos os baques superar,
se ainda me sinto forte para continuar
na lida,
se estou cercado de amigos dispostos a
me apoiar,
se vivo sentimentos de confiança,
amor, fé e caridade,
se felizes momentos vividos me envolvem
por inteiro,
torna-se impossível deles não
sentir saudade.
**********
DESISTIR,
NUNCA!
(Bernardino Matos - 28/05/05)
As
pernas inchadas tornam longo o meu percurso,
a vista cansada embaça a nitidez
do meu horizonte,
uma renda minguada comprime o meu pobre
discurso,
doente, na fila do SUS, me parece ver
a morte defronte.
Ficaria
feliz se visse minhas filhas bem vestidas,
para participarem dos convites das amigas
para festas,
e jamais contemplá-las tristes,
cabisbaixas e sentidas,
meu Deus, é duro ter que aparar
da vida tantas arestas!
Gostaria
de ter um padrão de vida mais digno,
mas não consigo, sem o perfil que
exige o mercado ,
ver minha família aflita, sinto
algo amargo e maligno,
me dói por dentro, me dilacero,
de tão magoado.
Minha
esposa, safenada, insegura, cheia de medo,
tomando calmante a cada reação
desconhecida,
não vê-la feliz, em paz,
me traz forte desassossego,
e às vezes sinto vontade,até,
de abandonar a lida.
Ao
saber que meu irmão de um câncer
se opera,
e não posso procurar recursos mais
avançados,
quanta vontade de tudo mudar, quem dera,
e não sentir meu coração,
meus braços tão cansados!
Mas,
de repente, ouço uma voz que me
atinge a mente,
você é forte, inteligente,
tem fé, para que tanta fraqueza,
segure com força as rédeas
do seu destino e vá em frente,
você não está só,
tem amigos, acredite neles, tenha certeza.
Lembre-se
daquele paraplégico que você
quis ajudar,
a colocar sua cadeira de rodas no banco
de trás do seu carro,
não faça isso, disse ele,
eu me aceitei assim, pode largar,
estou me formando em Direito, vou vencer
,eu nunca esbarro!
Mais
tarde você o visitou em seu escritório
de advocacia,
lutando,bravamente, para acabar com o
desmando,
ele estava tranqüilo, seguro, realizado,
sem demagogia,
era o dedo de Deus lhe dizendo , assuma
o comando.
E
aquele cego, seu aluno, que se formou
em economia,
que era datilógrafo, escrevendo
em braile, numa fábrica,
que ia de ônibus, alegre, sem reclamar,
feliz, todo dia,
mude sua visão, alargue seu horizonte,
troque de tática.
E aquela jovem que fazia toda semana hemodiálise,
e que você evitava fitar os calombos
em seus braços,
que entregava todos os trabalhos com segura
análise,
que nunca em seu semblante viu das dores
os traços!
Você
a encontrou, ativa, após o transplante
de rins,
ela trabalha numa empresa como administradora,
isso indica, claramente, há mais
coisas boas, que ruins.
some mais uma lição de Deus,
em sua obra criadora.
E
aquela jovem empresária que desmaiava
em plena sala,
com um tumor no cérebro e com um
ar sofrido de medo,
mas nunca desistiu de estudar, quando
penso perco a fala,
e você a encontrou no carnaval,
dançando um samba-enredo!
Ela
se submeteu a uma cirurgia e era benigno
o tumor,
estava feliz, dançando e pulando
com seu namorado,
havia renascido e em seu semblante não
havia traços de dor,
amava a vida, juntou forças, venceu
de pé, num combate honrado.
E
aquele professor, inteligente, culto,
sempre descontraído,
que adquiriu um vírus que atingiu
o sangue que o corpo irradia,
perdeu uma vista, teve três enfartos,
e parece nada ter tido,
e ainda está lutando para se curar
de uma leucemia!
Na
sala de aula dá um show de conhecimento
e maestria,
nos intervalos, na sala dos professores,
faz todo mundo rir,
está sempre de bom humor, seu espírito
alegre a todos contagia,
esse assumiu seu destino e sabe muito
bem pra onde ir.
Esses
exemplos dignificam o ser humano, é
pura superação,
entregar-se diante de qualquer obstáculo
é muita fraqueza,
é um ato de covardia, cujo vacilo
nos deixa rente ao chão.
temos que ter fé, coragem, e encarar
a vida com firmeza.
É
por essa razão que a ciranda “vamos
nos dar as mãos”,
tem um valor imenso, chega a ser incomensurável,
certamente, Deus assim pensou em sua criação,
que o ser humano de tão humano
fosse adorável.
Se o sofrimento magoa e asfixia,
desistir de lutar é pura covardia.
**********
AMAR
É TUDO, MAS É OSSO.
(Bernardino Matos - 08/5/05)
Se o amor é um não sei que,
que deixa a gente não sei como,
caminhar sem um bem - querer
é optar por viver,
no mais completo abandono.
Falar de amor é muito fácil,
se faz muita poesia,
ele é letra de canção,
e tema de samba-enredo,
mas se doar pra valer,
é coisa que mete medo.
Amar é assumir por inteiro,
sem tomar o espaço de alguém,
vem lá da alma, é profundo,
exige renúncia também,
é querer,sem tomar posse,
e andar livre pelo mundo.
O amor tem que ser total,
mas sem ocupar os espaços,
não tem lugar para o egoísmo,
pois isso enfraquece os laços,
e aprisionar alguém,
é colocar Deus no ostracismo.
Viver, porém, lado a lado,
seguir o mesmo roteiro,
acordar toda manhã,
e adorar da pele o cheiro,
sorrir sempre na amargura,
é como um vôo de acauã.
Enfrentar com alegria as agruras,
os altos e baixos da vida,
estender a mão na tristeza,
suportar o peso da lida,
e amar sempre ,cada dia,
torna-se até uma proeza.
Aceitar de alguém seus defeitos,
seus momentos de solidão,
mesmo quando se está presente,
isso não é fácil
não.
Mas me diga se é possível,
viver sem o amor da gente.
Ouvir recriminações,
censuras, críticas amargas,
quando é exíguo o ganha-pão,
as decepções ficam largas,
e a vontade que se tem ,
é de se andar na contra-mão.
Esse é o caminho mais fácil,
é um ato de covardia,
é muita falta de coragem,
parar, sem ter ousadia,
pois o que parece terremoto,
não passa de simples aragem.
Ficar tranqüilo na dor,
substituir a aspereza por ternura,
seguir sempre com destemor,
não é ato de bravura,
é um sentimento mais forte,
por Deus, isto é o amor.
Quem não sofreu decepção,
não passou por desengano,
não enfrentou abandono,
viveu sem recordação,
não sabe o que é primavera,
e não dá valor ao outono.
Hoje é o dia das mães,
uma expressão do amor,
do carinho e da ternura,
mas um dia de muita dor ,
para os que estão nos asilos,
respirando do ar a amargura.
Uma coisa que me revolta,
pois é um gesto de baixeza,
colocar os pais nos asilos,
provoca a maior tristeza
mas Deus está lá em cima,
dizendo, isso tem volta, pupilos.
A luta para criar os filhos é árdua,
mais não ter deles o amor,
deixa uma profunda mágoa,
que logo desaparece,
quando na vida eles enfrentam,
qualquer momento de dor.
Se você não tem coragem,
de se doar sem dimensão,
de tornar eterno o passageiro ,
de sempre estender a mão,
amigo, isso é sinal, de que
amar não é mole não.
Já vivi muitos momentos,
de completo desespero,
já estive no fundo do poço,
e fui sempre salvo pelo amor,
que me cortou o destempero,
mas lhe confesso, amigo, é osso.
Estamos no último trecho,
de uma longa caminhada,
de nada me arrependo,
pois uma pessoa danada,
chamada Raquel Caminha,
me deu um amor estupendo
Nesse belo dia das mães,
eu sinto, às vezes, tristezas,
de não ter me doado mais,
de ter dito asperezas,
Raquel, porem fique certa,
O meu amor é demais.
********
A
TERRA MÃE DE TODOS E
POR DEUS ABENÇOADA.
(Bernardino
Matos)
Conforme
reza a sabedoria
da cultura popular,
para se retomar uma idéia,
cuja base foi abordada,
é importante que se inicie,
pelo fio da meada.
No caso de um tema nobre,
para uma mente iluminada,
como a importância
da terra,
Mãe de todos,
e por Deus abençoada.
Com um salário miserável,
que de tão insuficiente,
é denominado de mínimo,
para garantir o sustento
e um padrão de vida ínfimo,
o trabalhador necessita
de uma renda complementar,
e o fruto dessa empreitada
normalmente, vem
da terra,
Mãe de todos,
e por Deus abençoada.
Com
oito filhos pra criar,
meu pai sempre utilizava,
uma moeda importante,
de grande circulação,
por “fiado” conhecida,
que no caderno do armazém,
numa conta controlada,
ele comprava a comida,
alimentos vindos
da terra,
Mãe de todos ,
e por Deus abençoada.
Para
prover da família o sustento,
meu pai arrendava um roçado,
num contrato de meeiro,
que dava o direito ao dono
de receber da produção a
metade,
fruto de um trabalho suado.
E no fim dessa jornada,
Fome a gente não passava,
o socorro vinha sempre
das entranhas ricas
da terra.
Mãe de todos ,
e por Deus abençoada.
A
certeza do alimento,
vinha sempre do roçado,
que não nos deixava na mão,
produzindo o arroz e o milho,
a batata e o feijão,
e ainda vinha de quebra,
um punhado de algodão.
E a família prostrada,
rezava e agradecia,
as benesses vindas
da terra,
Mãe de todos,
e por Deus abençoada.
O
arroz tem uma mania,
tipo ressaca de bêbado.
Precisa sorver muita água
e só cresce na banheira.
onde se desenvolve sem mágoa,
pois precisa estar grudado
no suor da natureza.
E ele só não desaba,
por causa do calor
da terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
Embora
a vida sofrida,
a família lutava unida,
desde a plantação da semente,
até a colheita final,
pois recursos não existiam,
pra contratar pessoal.
O aprendizado , porem,
vinha de uma escola bem cotada,
do contato com
a terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
O
feijão tem um papel,
de muito alcance social,
pois no ato da debulha,
os vizinhos reunia,
em torno de um lençol branco,
para preparar o bom bocado,
em troca da amizade
e da solidariedade,
própria do sertanejo,
que do amor é brotada.
E isso graças
à terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
Num
tonel armazenado,
hermeticamente fechado,
para sem chance deixar
o gorgulho invocado,
o feijão era estocado,
para um amanhã incerto,
e uma sorte esperada.
graças ao amor
à terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
Para
suprir o leite diário,
a compra de quatro vaquinhas
modificava o cenário.
E da caça aos passarinhos,
bem como à galinha d´água,
ou um marreco descuidado,
a alimentação era complementada,
graças à força
da terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
E,
assim, em pleno sertão,
em meio à triste catinga,
entre os espinhos da jurema,
e uns bons goles de pinga,
o sertanejo envelhece,
sua vista esmaece,
e numa vida atrapalhada,
depois de longa caminhada,
ele agradece
à terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
E
em lentos passos trôpegos,
sem nunca perder o rumo,
o sertanejo definha,
mas sempre sem amargura.
Na vida ele bate forte,
sem nunca perder a ternura.
E numa volta conformada,
depois de uma jornada
para as entranhas
da terra,
Mãe de todos
E por Deus abençoada.
Nos
momentos mais difíceis,
essas lembranças confortam,
e tonificam a esperança,
de que os filhos assumam
seus destinos com firmeza,
e jamais seja trocada
pelos mitos da cidade,
a candura vinda
da terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
E
vamos caminhando firmes,
para nossa última morada,
deixando para traz as ilusões,
as decepções e avaliações
frustradas.
Pois do outro lado do mundo,
num ambiente de amor e paz,
numa vida celestial,
nossa angústia será trocada,
pela felicidade eterna,
graças ao amor
à terra,
Mãe de todos
e por Deus abençoada.
********
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